Novos vídeos mostram como PMs mataram jovem desarmado e rendido em Paraisópolis; julgamento entra no 2º dia
29/07/2026
(Foto: Reprodução) Exclusivo: novas imagens de câmeras corporais mostram outro ângulo de policiais militares atirando em jovem rendido
O julgamento de dois policiais militares acusados de executar Igor Oliveira de Moraes Santos em Paraisópolis, na Zona Sul de São Paulo, entra no segundo dia nesta quarta-feira (29). A TV Globo teve acesso a novas gravações das câmeras dos agentes que participaram da ação (vídeo acima).
Os vídeos mostram, por outro ângulo e de forma mais detalhada, a sequência que terminou com a morte de Igor, que tinha 24 anos, e registram o momento exato em que os disparos são feitos contra o jovem, que aparece desarmado e obedecendo às ordens dadas pelos policiais.
As imagens da câmera corporal do soldado Hugo Leal de Oliveira Reis devem ser exibidas aos jurados nesta quarta. Hugo e o soldado Victor Henrique de Jesus respondem pelo mesmo crime na condição de colaboradores dos executores. Como os processos deles foram desmembrados, eles ainda não foram levados a júri.
Detalhes do crime
Em uma sequência de cerca de 20 segundos, Igor aparece inicialmente rendido, com as mãos sobre a cabeça. Em seguida, ele se deita no chão após receber ordem dos policiais. Depois, começa a se levantar, com uma mão erguida, novamente obedecendo às determinações dos agentes.
Nesse momento, o cabo Renato Torquatto da Cruz faz o primeiro disparo. Logo em seguida, o cabo Robson Noguchi de Lima também atira contra o jovem.
As gravações mostram que, assim que os policiais chegam ao quarto onde estavam quatro suspeitos, todos se rendem.
Durante a abordagem, é possível ouvir os policiais dizendo: "Perdeu, perdeu, perdeu."
Na sequência, o cabo Renato Torquatto da Cruz, ainda do lado de fora do quarto, pergunta se há alguém armado e dispara duas vezes contra as paredes do imóvel.
Após os tiros, os quatro suspeitos se deitam no chão enquanto os policiais continuam perguntando sobre armas.
Pouco depois, Robson Noguchi de Lima entra no cômodo, seguido por Renato Torquatto da Cruz, que pergunta a Igor se ele tem antecedentes criminais e se está armado. O jovem responde que não.
O policial então manda Igor se levantar. Quando ele começa a obedecer, Renato dispara. Em seguida, Robson também atira.
As imagens das câmeras corporais não mostram nenhuma arma com os quatro suspeitos. Após os disparos, os policiais passam a conversar a fim de inferir que o suspeito portava uma arma: "Tava armado, caralho. Tava armado".
Em seguida, fazem um novo disparo contra a parede enquanto repetem ordens para que os suspeitos "soltem a arma".
Depois, os policiais colocam luvas e seguem dentro da residência. Até o fim das gravações das quatro câmeras corporais, não há registro da apreensão de nenhuma arma com os quatro homens abordados.
2º dia de julgamento
Nesta quarta-feira (29), o Tribunal do Júri deve ouvir mais quatro testemunhas. Na sequência, está previsto o interrogatório dos dois policiais militares que são julgados.
No entanto, como o primeiro dia de julgamento se estendeu por várias horas, ainda existe a possibilidade de que os interrogatórios não sejam concluídos nesta quarta.
Depois dessa fase, começam os debates entre acusação e defesa.
A decisão ficará a cargo de sete jurados, cinco homens e duas mulheres, que deverão decidir se os dois policiais serão condenados ou absolvidos. A expectativa é que o julgamento seja encerrado apenas na quinta-feira (30).
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Quem sãos os PMs réus
PMs com body cam atiram em Igor, mesmo ele tendo erguido as mãos para se render. Suspeito foi morto com dois tiros dados pelos agentes em Paraisópolis
Reprodução
Dois policiais — os cabos Renato Torquatto da Cruz e Robson Noguchi de Lima — respondem presos pelo crime de homicídio qualificado por motivo torpe e pelo uso de recurso que dificultou a defesa da vítima. Segundo a acusação, foram eles que atiraram em Igor. Os dois deverão ser julgados nesta semana.
Os soldados Hugo Leal de Oliveira Reis e Victor Henrique de Jesus também respondem pelo mesmo crime, mas na condição de colaboradores dos executores. No caso deles, o processo foi desmembrado e ainda não há data para o júri.
Os quatro réus aparecem nas imagens das câmeras corporais utilizadas durante a ocorrência que terminou com a morte de Igor. A equipe de reportagem teve acesso às gravações.
À época, os agentes das Rondas Ostensivas com Apoio de Motocicletas (Rocam), do 16º Batalhão da Polícia Militar (BPM), alegaram que realizavam patrulhamento no cruzamento das ruas Rudolf Lotze e Pasquale Gualupi, em Paraisópolis, para combater o tráfico de drogas na região.
Investigação do DHPP aponta execução
Câmera corporal mostra PM executando suspeito rendido durante operação em Paraisópolis
Segundo os policiais, ao menos três suspeitos armados fugiram ao ver as motos da corporação e entraram em uma casa, localizada em uma viela, onde teriam se escondido.
De acordo com as investigações do Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), as imagens das câmeras corporais mostram que Igor foi vítima de execução. Os PMs não sabiam que os equipamentos estavam funcionando e gravando a ocorrência.
Nas gravações, é possível ver os PMs invadindo o imóvel e arrombando a porta do quarto onde Igor e outros dois suspeitos estavam escondidos atrás da cama. Assim que os agentes entram armados no cômodo, os três rapazes se rendem, com as mãos levantadas.
Mesmo assim, os policiais aparecem gritando com os jovens, exigindo que entregassem armas, apesar de todos estarem desarmados. Igor aparece no vídeo da câmera corporal no lado esquerdo da imagem, levanta as duas mãos e as coloca atrás da cabeça, em um gesto claro de rendição.
Jovem ergueu mãos ao alto
Imagens das câmeras corporais mostram que PMs atiraram em suspeito rendido e desarmado em Paraisópolis
Reprodução
Diante da ameaça dos PMs, que miram as armas e fazem menção de atirar, Igor se ajoelha e ainda ergue uma das mãos novamente. Em seguida, ele é atingido por dois disparos, dados pelos cabos Renato e Robson. Os soldados Hugo e Victor também disparam, mas não atingem mais ninguém.
Igor morreu dentro do cômodo. Os outros dois jovens que estavam no imóvel não foram atingidos _ eles chegaram a ser ouvidos como testemunhas pela polícia. Dentro da casa, os PMs disseram que apreenderam diversas armas, munições e drogas que estavam com o trio.
Para o Ministério Público (MP), os policiais decidiram matar o jovem mesmo após a rendição, substituindo a atuação legal do Estado por uma ação de justiçamento.
Segundo a denúncia da Promotoria, os agentes agiram “impelidos por motivo torpe, deliberando matar o suspeito já rendido e subjugado em ato de desforra”.
Julgamento dos PMs
PMs executaram suspeito que estava rendido e desarmado.
Reprodução/TV Globo
O julgamento dois dois PMs acusados de matar Igor será conduzido pelo Tribunal do Júri, responsável por analisar crimes dolosos contra a vida. Caberá aos sete jurados decidir se os policiais são culpados ou inocentes pelas acusações relacionadas ao assassinato.
“A defesa pretende demonstrar aos jurados a legalidade da ação policial, eis que as câmeras corporais não mostraram a realidade”, afirmou João Carlos Campanini, advogado de dois dos acusados, o cabo Robson e o soldado Victor.
O advogado Wanderley Alves dos Santos, que defende o cabo Renato e o soldado Hugo, disse que a acusação contra seus clientes é frágil.
"A hipótese acusatória não se sustenta. Imagens da COP são apenas um recorte acerca dos fatos e estão sujeitas a diversos vieses cognitivos", disse Wanderley sobre a defesa de seus clientes. "A defesa demonstrará a legitimidade na atuação policial."
'Vieram na maldade', diz pai
Área próximo à favela de Paraisópolis em que grupos atacaram motoristas na noite de quinta-feira (10)
Reprodução/TV Globo
"A gente busca justiça porque entendemos que foi uma execução. Não somos contra a PM. Esses PMs, no caso, acabaram manchando nome da corporação porque se excederam", disse o advogado Jonatha Carvalho, que atua no caso ao lado da advogada Gabriela Amoras Silva.
Eles defendem os interesses da família de Igor e atuam como assistentes da acusação.
"O que mais me dói é que meu filho ficou agonizando e deixaram-no morrer de olhos e boca abertos", disse Magdo de Moraes Santos, pai de Igor, ao g1. "Vieram na maldade."
Igor deixou uma filha de 5 anos.