Espuma no Rio Tietê em Salto: entenda como resíduo afeta a natureza e quais medidas poderiam ser adotadas

  • 29/08/2026
(Foto: Reprodução)
Espuma no Rio Tietê em Salto: entenda como resíduo afeta a natureza Um trecho do Rio Tietê em Salto (SP) sofre há anos com um problema crônico: grandes volumes de espuma tóxica que surgem na superfície do rio e evidenciam a degradação da qualidade da água. Somente neste ano, o g1 noticiou diversas ocorrências de espuma no Rio Tietê. Em uma delas, pela primeira vez, o fenômeno foi registrado em um trecho do Rio Jundiaí, que deságua no Tietê, também em Salto. O resíduo também chegou a aparecer em uma parte do Rio Tietê em Itu (SP). 📲 Participe do canal do g1 Sorocaba e Jundiaí no WhatsApp Ao g1, o engenheiro ambiental sanitarista Lucas Gomes, de Salto, e o biólogo Hélio Pereira, de Sorocaba (SP), explicaram os impactos do fenômeno na natureza e quais medidas poderiam ser adotadas para combatê-lo. Para começar, é importante entender que o problema resulta da combinação de três fatores principais: Poluição: o esgoto doméstico e industrial não tratado, que desce da Grande São Paulo, é rico em fósforo e resíduos de detergentes; Falta de chuvas: a estiagem recente na região diminui a vazão do rio, o que aumenta a concentração dos poluentes na água; Quedas d'água: a agitação da água nas pedras funciona como um "liquidificador", batendo os produtos químicos e gerando a espuma que cobre a paisagem. Impactos ambientais Depois de duas semanas, o Rio Tietê continua coberto por uma espuma branca, em Salto (SP) D-Vision imagens aéreas/Reprodução Flora aquática e terrestre A começar pela flora local, o biólogo explica que a espuma compromete a vegetação das margens do rio e o ecossistema aquático. Os detergentes, a matéria orgânica e outras substâncias presentes na água podem alterar as condições físico-químicas dos trechos. “A espuma impacta os processos fisiológicos das plantas e compromete o equilíbrio dos ecossistemas. Além disso, a degradação da qualidade da água pode reduzir a capacidade de regeneração da vegetação ribeirinha e favorecer processos de degradação ambiental”, pontua. 🔎 Condições físico-químicas são características da água, como potencial hidrogeniônico (pH), temperatura, oxigênio dissolvido e concentração de substâncias químicas. Fauna aquática Espuma tóxica cobre o Rio Tietê em Salto (SP) TV TEM/Reprodução Já na fauna aquática, o problema é ainda maior. Segundo Hélio, a espuma é apenas a manifestação visual de uma água que recebe uma carga elevada de poluentes. Ao afetarem as condições físico-químicas da água, os contaminantes contribuem para a redução do oxigênio dissolvido e impactam diretamente os animais. “Além disso, ela altera as condições necessárias à sobrevivência de peixes, invertebrados e outros organismos aquáticos. A alteração da qualidade da água também pode provocar desequilíbrios nas cadeias alimentares e reduzir a biodiversidade”, diz. Ele ainda pontua que a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) mantém, em seu monitoramento de águas interiores, registros de oxigênio dissolvido, sedimentos e peixes mortos. “Isso porque esses indicadores são fundamentais para avaliar a saúde dos ecossistemas aquáticos. Portanto, mesmo quando não ocorre uma mortandade imediata de animais, a exposição contínua a um ambiente degradado pode produzir impactos ecológicos de longo prazo”, diz. Fauna terrestre Garça no Rio Tietê em Salto (SP) Reprodução / TV TEM Os animais terrestres também sofrem com a concentração de poluição no rio. De acordo com o biólogo, mamíferos, aves, répteis, anfíbios e outros animais podem entrar em contato com a água contaminada ao beber, se alimentar ou utilizar as margens como abrigo. “Eles ficam expostos a substâncias químicas e a outros poluentes presentes no ambiente. Além do risco de intoxicação direta, a degradação do rio pode reduzir a disponibilidade de água e alimento e comprometer organismos que integram a base das cadeias alimentares, provocando efeitos indiretos sobre as populações de animais terrestres”, explica. A persistência desse processo também pode contribuir para a perda da biodiversidade e para o desequilíbrio ecológico das áreas de mata ciliar e dos demais ambientes associados ao rio, segundo Hélio. “A recuperação da qualidade ambiental do Tietê é fundamental não apenas para os organismos aquáticos, mas para todo o ecossistema de sua bacia”, reforça. População Biólogo Hélio Pereira Júnior fala sobre os impactos da espuma tóxica no Rio Tietê em Salto (SP) Arquivo Pessoal Por fim, a população sente os impactos ambientais, sanitários, econômicos e também sociais. Segundo o biólogo, o contato direto com a água espumosa deve ser evitado, especialmente para atividades de lazer, pesca ou outras formas de exposição. “Além do possível risco associado aos contaminantes, a degradação do Tietê compromete a paisagem, o turismo, a qualidade de vida das comunidades ribeirinhas e a relação da população com o rio”, diz. LEIA TAMBÉM: Região Metropolitana de Sorocaba cresce, atrai moradores e enfrenta desafios ambientais Falta de atendimento, medo e desinformação ameaçam animais silvestres na região de Sorocaba De acordo com Hélio, a presença recorrente das espumas representa também um prejuízo à imagem e ao aproveitamento social do patrimônio natural, principalmente em locais onde o Tietê possui grande importância paisagística, histórica e turística. “A questão, portanto, ultrapassa os limites de um município: é um problema de toda a bacia hidrográfica e exige ações integradas de saneamento, fiscalização, monitoramento e recuperação ambiental”, conclui. Soluções Rio Tietê continua com espuma branca nesta sexta-feira (29), em Salto (SP) D-Vision imagens aéreas/Reprodução Para reduzir a espuma, o engenheiro ambiental explica que algumas medidas podem ser adotadas de forma pontual. Entre elas estão a instalação de barreiras de contenção e skimmers de superfície nas proximidades da barragem de Salto, onde a turbulência da água faz a espuma aflorar. 🔎 Skimmers são equipamentos que retiram a espuma e outros resíduos que ficam na superfície da água. "Isso não resolve a causa, mas reduz o impacto visual e o risco de contato da população. Também podem ser instalados dispersores mecânicos fixos para quebrar a espuma antes que ela se acumule em grandes volumes", explica. No entanto, ele pontua que as barreiras físicas podem ajudar a reduzir a espuma, mas atuam apenas no local onde o problema aparece e não eliminam a fonte da poluição. "Para melhorar a qualidade da água de forma definitiva, é necessário atuar na origem, porque o Tietê é um corpo hídrico contínuo: o que é lançado lá em cima chega lá embaixo", diz. "Isso exige gestão integrada de bacia hidrográfica, coordenada entre os municípios da Grande São Paulo, os do interior, como Salto, e os órgãos estaduais. Cada um agindo isoladamente no seu território não resolve o problema regional", continua. Espuma no Rio Tietê em Salto: entenda impactos e possíveis soluções O engenheiro também destaca a importância do monitoramento contínuo de surfactantes aniônicos e fósforo total na água. Segundo ele, os dados podem embasar ações corretivas e o planejamento para que os órgãos públicos responsáveis desenvolvam um projeto com viabilidade significativa para o município. 🔎 Surfactantes aniônicos são substâncias presentes em produtos como detergentes e sabões que ajudam a remover sujeira, mas podem contribuir para a formação de espuma na água. Engenheiro ambiental sanitarista de Salto (SP) fala sobre soluções para combater a espuma no Rio Tietê Arquivo Pessoal "Mas a medida de engenharia que realmente ataca a causa é o investimento em tratamento de esgoto na Região Metropolitana de São Paulo", reafirma. Além disso, entre as principais alternativas estão as Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs) com tratamento terciário, capazes de remover fósforo e nitrogênio, além da matéria orgânica. "Também são citados os wetlands construídos, ou banhados artificiais, que funcionam como filtro biológico natural para efluentes de menor escala. Outra medida é a substituição progressiva de detergentes com alto teor de fosfato por formulações biodegradáveis", diz. Rio tietê, em Salto (SP), continua coberto por espuma tóxica TV TEM/Reprodução 🔎 Wetlands construídos são áreas artificiais com plantas, solo e microrganismos que funcionam como um filtro natural para tratar a água e remover poluentes. O engenheiro também menciona a ampliação da rede coletora de esgoto para eliminar lançamentos clandestinos diretamente no rio ou em córregos afluentes (rio ou riacho menor que deságua em um rio principal). Além disso, a longo prazo, ele cita a universalização do tratamento de esgoto na bacia do Alto Tietê, a fiscalização de lançamentos industriais e domésticos irregulares e o monitoramento contínuo da qualidade da água, não apenas de forma reativa, quando a espuma aparece. "Também são necessárias educação ambiental e pressão regulatória sobre a composição de produtos de limpeza, além da recuperação de matas ciliares e áreas de recarga, que ajudam a filtrar poluentes antes de chegarem ao rio", explica. Custo das medidas De acordo com Lucas, a escala financeira necessária para enfrentar o problema já foi dimensionada publicamente: o governo do estado prometeu investir R$ 5,6 bilhões na rede de tratamento de água até 2026. Isso porque, atualmente, na bacia do Alto Tietê, que atende São Paulo, pouco mais da metade do esgoto é tratado, explica o engenheiro. "O tratamento terciário é mais caro que o secundário convencional. Não é uma ação pontual: é infraestrutura de saneamento em escala metropolitana e isso sempre tem um custo financeiro muito alto, mas, visando à sustentabilidade e à preservação dos recursos hídricos, é necessário", explica. O engenheiro reforça que o custo depende da extensão da rede de coleta ainda não implantada, incluindo ligações domiciliares clandestinas ou inexistentes, da capacidade das estações de tratamento existentes e da tecnologia necessária para remover fósforo e surfactantes. Responsabilidade compartilhada Edifício Matarazzo, sede da prefeitura de São Paulo Reprodução/Prefeitura de São Paulo No fim, a solução do fenômeno depende da atuação conjunta de diferentes setores. De acordo com o engenheiro, os municípios da Grande São Paulo devem ampliar a coleta e o tratamento de esgoto, enquanto a Sabesp e as concessionárias de saneamento são responsáveis pela operação da infraestrutura. A Cetesb e os órgãos ambientais estaduais atuam na fiscalização e definição de metas de qualidade da água. Já os comitês de bacia hidrográfica, como o do Alto Tietê, articulam ações entre municípios e financiam projetos com recursos de outorga e cobrança pelo uso da água. O g1 questionou as seguintes entidades: Prefeitura de Salto; Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb); Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo (Semil); Comitê de Bacia Hidrográfica Sorocaba e Médio Tietê (CBH-SMT); Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). As entidades questionadas responderam às perguntas. Confira as notas abaixo: Comitê Em nota, o CBH-SMT informou que as perguntas foram respondidas pela SOS Mata Atlântica, em nome da entidade. Malu Ribeiro, representante da organização, explicou que o perfil da poluição do Rio Tietê mudou ao longo das últimas décadas. Segundo ela, entre os anos 1970 e 1990, a principal fonte de poluição era industrial. Com o tratamento dos efluentes pelas indústrias, o principal desafio passou a ser a carga orgânica e a poluição difusa, relacionada à ausência de saneamento básico nos municípios. Atualmente, os efluentes domésticos continuam sendo a principal fonte de poluição, mas novas fontes também foram identificadas. Em uma expedição da SOS Mata Atlântica ao longo dos 1,1 mil quilômetros do rio, em conjunto com seis universidades públicas, foram encontrados microplásticos, produtos farmacológicos, fertilizantes, defensivos agrícolas e agrotóxicos. Malu destaca ainda o papel do Comitê no acompanhamento das ações de despoluição do Tietê. Segundo ela, a entidade atua na mobilização dos municípios para o tratamento de esgotos domésticos e a recuperação dos afluentes do rio, como os rios Sorocaba e Jundiaí. "O Comitê de Bacia tem tido um papel preponderante a partir de sua instalação, de mobilizar os municípios, principalmente Sorocaba, para tratar esgotos domésticos, para promover a despoluição e a recuperação dos afluentes do Tietê", afirma. Apesar das ações já realizadas, Malu avalia que as medidas ainda não são suficientes para recuperar a qualidade da água do Médio Tietê. Segundo ela, a qualidade varia de ruim a regular no Médio Tietê Superior e permanece nessa condição em alguns trechos até o reservatório de Barra Bonita. Entre as medidas defendidas estão o fortalecimento da participação da sociedade e das autoridades nos Comitês de Bacia, o reenquadramento dos corpos hídricos e o uso de recursos do Fundo Estadual de Recursos Hídricos (Fehidro) em soluções baseadas na natureza e tecnologias para melhorar os sistemas de tratamento de efluentes. Ainda conforme o posicionamento, o Comitê também acompanha e cobra avanços da Região Metropolitana de São Paulo, apontada como a maior fonte de poluição que chega à região do Médio Tietê. Semil Em nota, a Semil informou que o Estado mantém ações de limpeza, fiscalização e monitoramento do Rio Tietê. Além disso, desde 2023, a SP Águas retirou 6,5 milhões de metros cúbicos de sedimentos da Bacia do Tietê, com investimento superior a R$ 1,14 bilhão. Já o programa Rios Vivos removeu mais de 4,8 milhões de metros cúbicos de resíduos em 197 municípios. Ainda conforme a nota, na fiscalização, o Grupo de Fiscalização Integrada do Tietê (GFI-Tietê) percorreu mais de 7,4 mil quilômetros em trechos navegáveis do rio para identificar lançamentos irregulares de esgoto e resíduos industriais e agrícolas. A Cetesb realizou quase 600 inspeções, que resultaram em aproximadamente 130 penalidades e mais de R$ 14,7 milhões em multas. Segundo a Semil, a Cetesb mantém seis estações automáticas e 27 pontos de amostragem no Rio Tietê, além de acompanhar 30 afluentes e medir a carga orgânica na barragem Edgar de Souza. Neste ano, o órgão também passou a utilizar imagens de satélite e inteligência artificial para acompanhar cerca de mil quilômetros de rios e reservatórios paulistas. De acordo com a pasta, a carga de poluição no Tietê caiu 21% nos últimos dois anos, o equivalente a uma redução média de 46 toneladas por dia. Para os próximos anos, a secretaria afirma que pretende manter as ações de fiscalização, monitoramento, desassoreamento e recuperação ambiental. A pasta também cita como meta a universalização da coleta e do tratamento de esgoto até 2029. Prefeitura de Salto Em nota, a Prefeitura de Salto informou que a espuma observada no Rio Tietê é resultado da carga de poluição lançada na Região Metropolitana de São Paulo. A pasta afirma ainda que o fenômeno ocorre todos os anos no município e só deixaria de acontecer caso as cidades da Grande São Paulo cessassem o lançamento de poluentes no rio. Ainda conforme a prefeitura, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente monitora a situação e participa de reuniões nos Comitês de Bacia e em outros grupos que discutem soluções para melhorar a qualidade da água do Tietê. A administração também informou que técnicos da Secretaria Municipal de Meio Ambiente integram o FIAR-Tietê (Fórum de Integração das Ações de Recuperação do Rio Tietê), instância de governança do Programa Integra Tietê, do Governo de São Paulo, que prevê medidas de curto, médio e longo prazo para a recuperação do rio. Sabesp Em nota, a Sabesp informou que lidera a frente de saneamento do Programa Integra Tietê, com mais de R$ 20 bilhões em investimentos, voltados principalmente à expansão da coleta e do tratamento de esgoto na Região Metropolitana de São Paulo. Segundo a empresa, mais de 125 mil novos domicílios foram conectados ao sistema de coleta de esgoto desde 2023, beneficiando cerca de 340 mil pessoas. Desde 2024, também foram entregues 16 novas Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs) e implantados mais de 920 quilômetros de tubulações. A Companhia afirma que essas ações já contribuíram para uma redução de 22% da carga orgânica no Rio Tietê e que a prioridade é ampliar a coleta e o tratamento de esgoto, especialmente em áreas que ainda não contam com atendimento adequado. A Sabesp também informou que prevê cerca de R$ 70 bilhões em investimentos até 2029, com o objetivo de antecipar as metas de universalização do saneamento. Cetesb A Cetesb foi questionada sobre quantas multas relacionadas à poluição do Rio Tietê foram aplicadas nos últimos cinco anos e detalhes dessas infrações. Por telefone, a Companhia informou que a responsabilidade dessa fiscalização é da Semil. Prefeitura de Salto (SP) Prefeitura de Salto/Divulgação * Colaborou sob supervisão de Eric Mantuan Veja mais notícias da região no g1 Sorocaba e Jundiaí VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM

FONTE: https://g1.globo.com/sp/sorocaba-jundiai/noticia/2026/08/29/espuma-no-rio-tiete-em-salto-entenda-como-residuo-afeta-a-natureza-e-quais-medidas-poderiam-ser-adotadas.ghtml


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