Audiência sobre incinerador de lixo em Perus tem confusão, vaias e denúncia de participantes pagos
01/04/2026
(Foto: Reprodução) Audiência sobre incinerador de lixo em Perus tem confusão e denúncia de "figurantes" pagos
Uma audiência pública para discutir a instalação de um incinerador de lixo na região de Perus, na Zona Norte de São Paulo, foi marcada por confusão, interrupções constantes e acusações de que pessoas de fora do bairro foram pagas para tumultuar o debate.
O encontro realizado na terça-feira (31) faz parte do processo de licenciamento ambiental da Unidade de Recuperação Energética (URE) Bandeirantes, que a Prefeitura de São Paulo pretende instalar na área onde funcionou o antigo Aterro Bandeirantes, desativado há 19 anos.
A proposta enfrenta forte resistência dos moradores da região, que ainda carregam lembranças negativas da época em que o local funcionava como depósito de lixo.
Entre as principais preocupações apontadas pela comunidade estão a poluição do ar, os possíveis impactos à saúde e ao meio ambiente, além do risco de explosões e incêndios, já que a área ainda emite biogás do antigo aterro.
Moradores de Perus protestam contra instalação de incinerador de lixo no bairro
Reprodução/movimento 'Incinerador de lixo em Perus, não'
A audiência lotou o auditório do Centro Educacional Unificado (CEU) Perus, e parte do público não conseguiu entrar, sendo contida por agentes da Guarda Civil Metropolitana (GCM).
Do lado de dentro, falas de representantes do poder público, da empresa responsável pelo projeto e da população foram interrompidas diversas vezes por gritos e vaias de manifestantes contrários e favoráveis à proposta.
Em nota, a SP Regula e a Loga informam que as Unidades de Recuperação Energética (UREs), previstas no contrato de concessão de resíduos sólidos do município, não devem ser confundidas com os antigos incineradores das décadas de 1970 e 1980.
"Trata-se de instalações modernas, que não oferecem riscos à saúde da população e são amplamente utilizadas, inclusive em áreas residenciais, em diversos países", afirmaram (leia mais abaixo).
Denúncia de “figuração”
Moradores acusaram a organização do evento de permitir a presença de pessoas que não seriam da região de Perus. Segundo eles, esses participantes foram levados de ônibus com o objetivo de tumultuar a sessão ou direcionar as manifestações.
Alguns moradores apresentaram mensagens que circularam em um grupo de WhatsApp chamado “Trabalho”. Nos textos, há a indicação de que um ônibus sairia da Barra Funda, na Zona Oeste da capital, além de orientações para aplaudir, vaiar e se manifestar conforme instruções dadas no local.
As mensagens também mencionam um pagamento de R$ 170, mais R$ 20 para alimentação, e afirmam que o valor só seria pago ao final da participação. Há ainda recomendações sobre vestimenta e exigência de comprometimento e energia dos participantes.
Moradores de Perus fazem protesto durante audiência pública sobre incinerador de lixo
O movimento que articula a oposição ao projeto também criticou a baixa representação de indígenas na audiência, devido à lotação.
"Lideranças das Terras Indígenas dos Povos Guarani-Mbyá, no Jaraguá, protetores do remanescente de Mata Atlântica da região, foram barrados no portão do CEU Perus. Depois de muita articulação, os organizadores permitiram a entrada de apenas três indígenas guarani-mbyá e os demais continuaram no foyer do teatro", diz comunicado do movimento "Incinerador de Lixo em Perus, não".
O possível impacto do incinerador a áreas sensíveis próximas, como o Parque Anhanguera e a Terra Indígena do Jaraguá, é um dos principais focos das críticas. Opositores do projeto também chamam atenção para o impacto social, com o possível fim de cooperativas de catadores e recicladores que atuam na região.
Licenciamento ainda em análise
A audiência foi conduzida pelo Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema) e é uma das etapas do processo de licenciamento ambiental do empreendimento. A Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) informou que ainda está analisando o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) apresentado para o projeto. Até o momento, nenhuma licença ambiental foi concedida.
Projeto de incinerador no antigo aterro Bandeirantes, na Zona Norte de São Paulo
Reprodução/TV Globo
A gestão Ricardo Nunes (MDB) e a Logística Ambiental de São Paulo (Loga), empresa parceira no projeto, apresentam a URE Bandeirantes como um marco na modernização da gestão de resíduos sólidos da capital.
O projeto prevê unidades previstas estão triagem inteligente, biossecagem, biodigestão, compostagem e a recuperação energética, que consiste na queima controlada de resíduos para geração de eletricidade.
Segundo a Prefeitura de São Paulo, a previsão é que a unidade fique pronta em 2028, caso o projeto seja aprovado nos órgãos ambientais.
A estimativa é que o incinerador tenha capacidade de processar até mil toneladas de resíduos por dia, reduzindo o volume de lixo em até 80% e diminuindo a dependência de aterros sanitários, que estão saturados.
O que dizem SP Regula e Loga
Leia a nota na íntegra:
"A SP Regula e a Loga informam que as Unidades de Recuperação Energética (UREs), previstas no contrato de concessão de resíduos sólidos do município, não devem ser confundidas com os antigos incineradores das décadas de 1970 e 1980. Trata-se de instalações modernas, que não oferecem riscos à saúde da população e são amplamente utilizadas, inclusive em áreas residenciais, em diversos países.
A SP Regula e a Loga informam que as Unidades de Recuperação Energética (UREs), previstas no contrato de concessão de resíduos sólidos do município, não devem ser confundidas com os antigos incineradores das décadas de 1970 e 1980. Trata-se de instalações modernas, que não oferecem riscos à saúde da população e são amplamente utilizadas, inclusive em áreas residenciais, em diversos países.
A URE mencionada integrará o Ecoparque Bandeirantes e tem como objetivo reduzir o volume de resíduos destinados a aterros, gerar energia, criar empregos e ampliar a proteção ambiental. A URE Bandeirantes terá capacidade para receber até mil toneladas de resíduos por dia, possibilitando a recuperação de cerca de 64% do material e a destinação de aproximadamente 36% a aterro sanitário externo.
A SP Regula e a Loga reforçam a importância da participação popular neste processo e informa que a audiência pública realizada ontem (31) teve como objetivo apresentar à população o projeto, além de tirar dúvidas e colher contribuições no âmbito do processo de licenciamento ambiental.
A Loga informa que não contratou figurantes nem realizou qualquer tipo de pagamento para participação na audiência pública. A empresa esclarece que realizou ações prévias de comunicação e educação ambiental na região, com o objetivo de informar e estimular a participação da população. A presença do público ocorreu de forma espontânea, respeitando o acesso por ordem de chegada e o limite de capacidade do local, em conformidade com as normas de segurança e rito do licenciamento ambiental."